S.O.S Yanomami

Foto: Ricardo Stuckert

“Quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente uma parte da humanidade morre junto com ela.” A fala do então recém-eleito presidente Lula, aconteceu logo após o segundo turno das eleições e ganhou novos e desconcertantes significados com o que a comitiva presidencial encontrou ao chegar na terra indígena do povo yanomami, em Roraima, há poucos dias.

Nos últimos quatro anos, o descaso em relação às violências extremas impostas pelo garimpo ilegal na terra indígena levaram a vida de pelo menos 570 crianças yanomami. As imagens chocantes da crise humanitária que circularam mundo afora nas últimas semanas não deixam dúvidas sobre a tragédia criminosa que se abate há anos sobre os habitantes da maior terra indígena do Brasil, agora foram revelada em seus mais altos níveis de morte e destruição.

Comitiva presidencial na terra indígena Yanomami. Foto: Ricardo Stuckert.


Inúmeras denúncias foram feitas pelas lideranças indígenas e organizações parceiras em instâncias nacionais e internacionais. Além de ações no MP desde 2020 e de uma incursão de uma equipe FioCruz que atestou a gravidade da situação em que os yanomamis estavam submetidos, o dossiê Yanomami Sob Ataque, publicado em 2021 pela Hutukara Associação Yanomami e Associação Wanasseduume Ye’kwana com supervisão técnica do Instituto Socioambiental (ISA), detalhou através de levantamentos, análises e depoimentos a devastação causada pelo garimpo em diferentes regiões da terra indígena trazendo propostas dos próprios yanomamis para desintrusão e recuperação do território. Nada de efetivo foi feito. Como afirmou a jornalista Sônia Bridi, que acompanhou a comitiva do governo em Roraima, “não é só uma tragédia, é uma vergonha nacional (…) um projeto de extinção, um projeto para varrer os ianomâmis do território.”

Outros povos como os Munduruku e Kayapó, no Pará, também resistem às ofensivas do garimpo em seus territórios e contam com alta contaminação por mercúrio em suas populações. As comunidades do Vale do Javari, no Amazonas, continuam em perigo pela ação de garimpeiros e traficantes promovendo terror na região, assim como os Pataxó, no sul da Bahia, alvo frequente de ataques de fazendeiros ligados ao agronegócio. O garimpo traz consequências nefastas para toda a sociobiodiversidade, causando uma desestruturação alimentar e social extremamente impactante nas comunidades indígenas. É preciso conter o garimpo já e expulsar os invasores das terras indígenas, responsabilizando os que incentivaram a entrada de garimpeiros nos territórios, negligenciando os pedidos de socorro e comprometendo a integridade e a sobrevivência destas populações. O Brasil precisa urgentemente garantir dignidade a seus povos originários, pois não há justiça climática nem social possível sem o reconhecimento do direito à terra para as populações indígenas.