
No Dia dos Artesãos, nossa homenagem às 1.835 mulheres indígenas e de comunidades tradicionais, que representam 72 povos originários e que ajudam a tecer a rede Tucum
Valorizar o ofício que transforma matérias-primas coletadas nas florestas e rios em belos artesanatos e contar as histórias de quem faz, é parte do nosso propósito. A rede Tucum é majoritariamente feminina, com 1.835 mulheres indígenas, ribeirinhas e de outras comunidades tradicionais do Brasil trabalhando em parceria com a gente. Mulheres que, enquanto exercem sua arte de trançar lindos cestos, colares e adornos dos mais variados tipos, transmitem lições preciosas sobre ancestralidade, resiliência e criatividade.
Falar da força das mulheres indígenas é falar do papel fundamental que desempenham na manutenção de suas culturas, de seus territórios e de suas comunidades. São elas que cuidam da casa, dos filhos, que vão pra roça. Que preparam a comida, as medicinas, os rituais. São elas as geradoras e protetoras da vida, são as que cuidam, as que ensinam às mais jovens o que as mais velhas lhe ensinaram. São as sabedoras, as fazedoras, as criadoras, as guardiãs das artes e também do território, as transmissoras dos mitos e dos conhecimentos de um povo.

Guerreiras que trazem em seus corpos e espíritos a beleza e também as marcas da opressão de mais de cinco séculos, estas mulheres que são também mães, artistas, artesãs, avós, filhas, ativistas, médicas, cientistas, lideranças, empreendedoras, seguem ressignificando suas existências para que suas culturas se mantenham vivas, geração após geração.


Ana Helena é gestora da Galeria Amazônica, espaço de referência de valorização e comercialização de artes indígenas e uma das iniciativas parceiras que integram o Marketplace Tucum de Artes Indígenas. Ela é uma destas mulheres que ao longo da vida, acompanhou mãe, tias, primas e avó na confecção das artes tradicionais do povo Kotiria, que habita as margens do Rio Uaupés (AM).

“Sou uma indígena do contexto urbano, nasci em Manaus. Minha avó, tias e mãe vieram para cidade mais tarde e o artesanato representava o sustento delas e de nossa família na cidade.”, conta Ana.
Além de responsável pela geração de renda de muitas famílias, o artesanato é uma atividade coletiva, que fortalece os vínculos afetivos reforçando a comunhão e a sensação de pertencimento. “Vi mulheres sozinhas, que chegavam à cidade sem falar a língua, sem saber como trabalhar na realidade urbana. Às vezes os maridos traziam [da aldeia] e elas não sabiam nem como voltar para suas comunidades. E essas mulheres eram acolhidas em grupos, como a Associação de Mulheres Indigenas do Alto Rio Negro (AMARN), por exemplo, que recebiam estas mulheres e organizava a produção de cada uma e botando seus artesanatos para vender.”
O fazer com as mãos é um conhecimento que Ana aprendeu a valorizar desde criança, pois dele vinha o sustento através dos ensinamentos ancestrais de seu povo. Uma mulher artesã é uma figura de respeito dentro de uma comunidade tradicional, simbolizando força, beleza e tradição. É com essa admiração que Ana fala da mãe e também da avó de 87 anos, que continua ativa, produzindo e transmitindo seus saberes às mulheres mais jovens. “Minha mãe foi uma das primeiras fornecedoras da Galeria Amazônica. Quando vim trabalhar aqui, há 9 anos, eu já entendia como trabalhar com as artesãs.”
As mulheres indígenas nos inspiram a resistir com beleza e sabedoria e se engana quem pensa que o trabalho de uma artesã se resume ao produto em si. Uma artesã é uma guardiã, em suas mãos ela carrega e transmite histórias únicas e belas através de suas criações.
Já quase na despedida de nossa entrevista, perguntei à Ana Helena como ela via a mulher indígena hoje, artesã, empreendedora, gestora dos próprios negócios, alcançando posições políticas de destaque. A resposta fala por si só: “As mulheres sempre foram as grandes protagonistas para nós, indígenas. Nas Associações, nos grupos de trabalho, nas mobilizações, na organização de feiras para vender seus artesanatos. As mulheres sempre foram e ainda são as protagonistas do movimento indígena.”

