ColaborAmerica – parte I: veja como foi a participação da Tucum no festival

Colaboramerica: repensando modelos, lógicas e práticas de consumo em prol de uma América Latina mais colaborativa

De 17 a 19 de novembro de 2016, a primeira edição do festival reuniu gente de diferentes áreas engajadas no desenvolvimento de negócios conscientes. Entre as iniciativas, empresas e projetos alinhados com essa proposta, a Tucum foi uma das convidadas para compartilhar ideias, experiências e metodologias inspiradoras que promovam o capital humano como fundamento para práticas comerciais.

O ColaborAmerica uniu os ideais de três festivais distintos, o #ColaboraRio, o Reboot e o OuiShare Fest. Foram mais de 1500 empreendedores, líderes em setores de negócios, cidadãos e gestores de toda a América Latina que se reuniram no Rio de Janeiro para repensar práticas de consumo e modelos de negócios rumo a novas formas de desenvolvimento mais conscientes e colaborativas.

A Tucum esteve por lá apresentando um pouco dos valores norteadores da marca e de que forma se dá o trabalho de valorização da arte da floresta, e o impacto positivo junto às comunidades tradicionais brasileiras. Participamos de três fóruns diferentes, onde pudemos compartilhar a experiência do comércio justo e da nossa visão de negócio social: o Painel Empreendedorismo Indígena & Inspirações do pensamento indígena para a Nova Economia; a mesa Tecendo o Futuro da Moda, reunindo empresas que desenvolvem métodos de implementar modelos de consumo consciente; e a Plenária Cultura Tradicional e Economia da Floresta, dedicada às novas formas viabilizar acordos comerciais respeitando as diversas realidades locais da floresta.

Foram dias de muita troca de ideias, palestras e atividades inspiradoras para quem acredita que um mundo de consumo mais responsável é possível. A gente conta aqui no blog como foi a participação da Tucum no evento, que ainda teve lojinha pop-up com a arte da floresta e pintura corporal Kayapó feita pela artista e amiga Panhgroti Kayapó, enfeitando os corpos que passaram por lá com tinta de jenipapo e os grafismos tradicionais de seu povo. A primeira parte da nossa cobertura é sobre o Painel Empreendedorismo Indígena & Inspirações do pensamento indígena para a Nova Economia, que teve Panhgroti Kayapó – com tradução de Amauri Kayapó, seu companheiro e coordenador da Associação Floresta Protegida (AFP) – falando sobre o fortalecimento da cadeia produtiva e o processo criativo do artesanato Kayapó, além de Fernando Niemeyer, antropólogo e indigenista, sócio-fundador da Tucum e assessor da AFP, apresentando a estrutura econômica e social indígena, seus modos de produção, de existência e resistência.

O documentário “Waricoco”, de Simone Giovine / AFP, foi exibido na abertura do painel. O filme mostra a preparação e o feitio do waricoco, cachimbo usado para proteger quem entra na mata e que é talhado manualmente pelas mulheres Kayapó.

 

Frame retirado do filme "Waricoco". Simone Giovine/AFP.

Frame retirado do filme “Waricoco”. Simone Giovine/AFP.

 

Depois de cumprimentar a plateia, Panhgroti abriu sua fala dizendo que tinha sido uma longa viagem da aldeia até o Rio de Janeiro para apresentar seu trabalho e das mulheres Kayapó pela primeira vez como palestrante: “Estou muito feliz de ver tanta gente ouvindo e aprendendo mais sobre a nossa cultura.”

Fernando Niemeyer também se apresentou e exaltou a parceria com o povo Kayapó: “Tenho o grande prazer de trabalhar com o Amauri e com a Panhgroti, há mais de cinco anos. E há mais ou menos três anos, eu e minha companheira empreendemos a Tucum, que é um movimento para valorizar comercializar a arte da floresta, de maneira justa, seguindo uma economia equilibrada e que possa sempre gerar benefícios para as comunidades.”

“Manter os costumes é proteger a cultura. A venda de artesanato, a pintura é [também uma forma de] proteger. Participar de eventos como esse é ajudar a manter a cultura indígena viva.” (Panhgroti Kayapó)

 

(Foto: Colaboramerica/Divulgação)

(Foto: Colaboramerica/Divulgação)

As diferentes formas de ver o mundo: indígenas e não-indígenas

“Vocês aqui são diferentes da gente. Na aldeia, na Terra Indígena onde nós vivemos, não tem nenhum índio passando fome, nenhum garoto vivendo na rua. Por isso que gente que a gente quer manter essa terra pra gente, pra proteger nosso povo. “

Assim, Panhgroti Kayapó chamou atenção de forma incisiva e certeira para uma diferença primordial entre a organização social dos povos indígenas e a nossa: o valor da vida.

Amauri contou um pouco sobre o trabalho valorização da arte tradicional, como ferramenta para o fortalecimento da autonomia de sua comunidade: “Os caciques e os mais velhos foram criando uma aproximação maior com os brancos, estimulando que os indígenas falassem melhor o português. Até que criamos uma instituição indígena, chamada Associação Floresta Protegida para buscar soluções, e pensar em projetos que sejam revertidos para a aldeia. Isso já acontece com a castanha, com a fiscalização do território e com a produção e venda do artesanato.”

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Amauri e Panhgroti Kayapó. (Foto: Simone Giovine/AFP)

 

“É muito impressionante que a gente possa ver que, dos limites da terra indígena para fora, já está tudo destruído e para dentro, preservado. Os Kayapó são mais ou menos 5 ou 6 mil indivíduos e se tivesse a mesma quantidade de não indígena nesse território, provavelmente não teria um pé de árvore, e sim pastagens ou coisa do tipo.”, declarou Fernando Niemeyer.

Fernando propôs algumas questões para dar continuidade a reflexão sobre as diferenças fundamentais entre o pensamento indígena e o nosso, não-indígena. “O que nós temos de diferente em relação aos povos indígenas, enquanto que a gente não consegue viver sem destruir e eles não conseguem viver sem floresta?”, provocou o indigenista. “A principal diferença está no modo de pensar, no modo de existir, no modo de ser.”, disse.

Aldeia Kendjam, T.I. Kayapó. (Foto: Simone Giovine/AFP)

Aldeia Kendjam, T.I. Kayapó. (Foto: Simone Giovine/AFP)

 

O indivíduo e a natureza

“Os povos indígenas não têm uma palavra para “natureza”. Na verdade, o conceito de natureza não existe entre esse povos.”, explicou Niemeyer. “A natureza, tal qual conhecemos, é uma construção da nossa cultura, da nossa sociedade. Já as relações que os indígenas têm com isso que chamamos de natureza são relações sociais. Quando se fala aqui da castanha ou da caça ou da pesca ou do mato é como se fosse toda uma rede de parentesco estendida, é outra forma de pensar, e isso faz com que haja uma maneira de interagir diferente.”

“A valorização da nossa cultura, com o apoio da associação indígena, vem buscando melhoramentos para nosso povo, como a venda do artesanato (pulseiras, colares, pinturas). Assim, a gente está protegendo o que a gente tem o direito de proteger. Não estamos envolvidos com garimpo, com pesca ilegal e nem outras atividades ilegais. E daqui pra frente, queremos estar presentes nos eventos, para mostrar nossa cultura pra vocês. E como ela é forte e viva.”, falou Panhgroti Kayapó.

Economia indígena: modo de produção doméstica e a não-acumulação – por Fernando Niemeyer

A gente tende a pensar nos povos indígenas como coletivistas e o modo de produção de indígena não é coletivista a priori. Chamamos de modalidade de produção doméstica, ou seja, a finalidade da produção é doméstica, serve para alimentar os seus, sua família. Os povos indígenas, antes do contato com os brancos, e ainda hoje, são considerados sociedades de abundância. Abundância é quando se equiparam meios e fins.

Esse modelo de produção doméstica tem características interessantes e inspiradoras. Uma delas é a subprodutividade: você produz menos do que poderia produzir. Subprodutividade do território e do trabalho. O trabalho indígena poderia produzir mais, mas não produz porque os fins aos quais eles se propõem são limitados e bem estabelecidos. A produtividade não é o fim em si próprio, pois existem outras coisas que não tem a ver com dinheiro e que são socialmente importantes, e uma delas é justamente o tempo. O tempo que você tem livre, é voltado para as crianças, para ficar com sua família, para preparar as festas e cerimônias e outras atividades na aldeia. Se você já plantou uma roça, se você caçou, se você pescou, agora é hora de descansar, de ficar com seus filhos. Então isso que é o mais importante.

“Quais os nossos meios, quais os nossos fins?”

Hoje o nosso meio, por excelência é o dinheiro; e os nossos fins não têm limites. Com o lucro, com o capital, a gente sempre quer mais.

Essa modalidade de produção doméstica a princípio, é frágil. Pois se você tem uma família com pouca força economicamente ativa – se alguém viaja ou fica doente, por exemplo – ela poderia ficar fragilizada. Então, ela depende de uma rede, que é a rede de parentesco. Por isso, as relações de parentesco são fundamentais para que se consiga sobreviver de forma economicamente equilibrada. Se alguém produz menos, ele vai ter que contar com algum parente.

A rede de reciprocidade é tão importante e tão intensa, que reprime a acumulação. Não faz sentido produzir mais do que precisa, a não ser que seja para doar para alguém. A reciprocidade faz parte de todo o modo de produção da economia indígena; produzir o que necessita mas sem acumular, sem gerar excedente. Esse é um plano de produção muito específico no Brasil, mas que existe em outras partes do mundo, como na Rússia, por exemplo. A economia dos povos indígenas da América do Sul se estrutura dessa maneira e ainda é vista como menos evoluída.

Os Kayapó só contam até três. O “três” é o “dois” sem o companheiro dele, que ‘”um”, o “sozinho”. Entender como um povo que só conta até três se organiza pode ser inspirador. É importante observar os dados conceituais e teóricos, além das relações sociais que estão envolvidos nisso. Será que nós [não-indígenas] somos tão evoluídos mesmo, será que a nossa lógica é realmente uma evolução?

É como eles falaram aqui: eles não deixam uma criança com fome. Não existe isso. A sociedade é feita para que todo mundo viva bem. 

 

Aldeia Kendjam, T.I.Kayapó. (Foto: Simone Giovine)

Aldeia Kendjam, T.I.Kayapó. (Foto: Simone Giovine)

 

A relação da Tucum com quem produz

O povo Kayapó é parceiro da Tucum desde o início, desde quando a Tucum era ainda um embrião, antes de virar loja. Somos muito gratos à confiança que os Kayapó depositaram nesse sonho, e é muito gratificante ver que essa rede fica cada vez mais forte. Panhgroti falou um pouco dessa parceria: “O apoio da Tucum ajuda a aumentar a produção das índias, que fazem o artesanato. É uma parceria que a gente vem confiando para melhorar ainda mais as nossas vendas, porque ajuda a alcançar mais gente.”

Perguntado como se dá a relação entre os artesãos e a Tucum, Fernando, explicou que a empresa atua tanto na comercialização do artesanato como na estruturação da cadeia, desenvolvendo um trabalho que respeita o contexto de cada comunidade. “A maioria dos povos indígenas não tem uma estrutura formalizada para trabalhar com negócios, para empreender. Então, a Tucum tem dois braços: um de comércio e outro de serviço, trabalhando diretamente com associações locais, núcleos familiares e cooperativas levando em conta o modo de pensar de acordo com cada realidade. Nos Kayapó, por exemplo, eles fundaram uma cooperativa, a Coo’Bay, para que possam fazer operações de compra e venda e remunerar cada vez melhor os artesãos da aldeia.”

Artesã Kayapó e os adornos feitos à mão. (Foto: Simone Giovine/AFP)

Artesã Kayapó. (Foto: Simone Giovine/AFP)

A diferença entre preço e valor

“É sempre difícil precificar um produto, porque cada um deles tem um valor imaterial envolvido. Além disso, a gente nunca sabe como o mercado vai reagir àquilo, então, a gente fez na Tucum um estudo de mark-up com o objetivo de pagar nossas contas, que é o que a gente aplica a priori nas peças à venda na loja. Se a gente vê que o mercado está aceitando uma determinada peça de uma forma mais fluida, o que a gente faz é aumentar o valor de compra, na aldeia. Se vende pouco, a gente entra em contato e discute se não é o caso de baixar um pouco o preço, o que é mais raro. Em geral, o que acontece é a gente testar um produto e ter uma saída rápida. Na pintura em tecido, por exemplo, em menos de um ano, aumentamos o valor de compra em 200%. Neste caso, foi uma iniciativa da Tucum de entrar em contato com os artesãos e renegociar o valor desse produto. Por mais que uma artesã demore menos tempo para fazer uma pintura do que uma pulseira, aquela pintura tradicional um valor simbólico enorme e é nesse sentido que a gente procura trabalhar. Sempre pensando nisso como forma de não mudar o modo de ser e fazer dessas comunidades; a gente não quer que eles produzam exclusivamente para a venda, porque eles também não querem isso. Não vamos chegar lá e encomendar três mil pulseiras, por exemplo.”

Guerreiro Kayapó confeccionando manualmente a borduna, artefato tradicional feito pelos homens da aldeia. (Foto: Simone Giovine/AFP)

Guerreiro Kayapó confeccionando manualmente a borduna, artefato tradicional feito pelos homens da aldeia. (Foto: Simone Giovine/AFP)

No próximo post, a participação da Tucum na mesa Tecendo o Futuro da Moda, e na Plenária Cultura Tradicional e Economia da Floresta.