Cocar de canudo: um objeto político

Cocar de canudo: um objeto político

Cocar de canudo: um objeto político

Para nós, o cocar de canudo é um objeto político, capaz de produzir diversas reflexões que nossa sociedade carece, em especial a de que nenhum índio é “menos índio” quando passa a se utilizar das coisas do mundo dos “brancos”. A ideia de que a cultura e a tradição estão na forma de pensar e agir sobre o mundo e de reinterpretar as novidades que lhes cruzam o caminho, como canudos, roupas, celulares e carnaval. A sociedade precisa saber que índios usam canudos sim, como usam roupa e celular, e não são menos índios por causa disso. A perfeição técnica, que vem de muitas gerações, através da qual os Kayapó reproduzem com canudos o que sempre fizeram com penas é um exemplo da genialidade e da criatividade indígena, e acima de tudo, uma prova de que os índios vivem e existem hoje, assim como co-existem com as coisas dos brancos agindo sobre elas, e não o contrário.

Sabemos que não é assim que a maioria pensa, o que se reflete na grande mídia e no Congresso: “esses que querem esta terra não são mais índios, vejam só, estão vestidos, e têm celular”. Tentar produzir reflexões para atuar de forma positiva na reversão desta matriz de opinião tão arraigada na sociedade é uma de nossas mais difíceis e obstinadas missões com a Tucum, e o cocar de canudo é um dos objetos mais interessantes neste sentido, pois traz consigo esta mensagem política e esta oportunidade de reflexão.

Todo fim de ano, a Tucum compra os cocares de uma importante organização indígena do povo Kayapó, a Associação Floresta Protegida (AFP). É ela que coloca os preços nas peças, considerados justos tanto pelos artesãos e quanto por seus clientes parceiros, como nós. Os cocares são feitos pelos guerreiros Kayapó (classe de idade daqueles que já têm neto), e a parceria com a Tucum proporcionou uma fonte de renda extra para muitos destes guerreiros. Só em 2015, 263 cocares de canudos foram encomendados, beneficiando em torno de 80 famílias, das aldeias Apejti, Ngomejti, Pykatum, Aukre, Mojkarakô, Kubenkrãkenh, Kedjerekrã, Kendjan e Pykatô, nas Terras Indígenas Kayapó e Menkragnoti, no estado do Pará. Além do preço pago ao artesão, a Tucum paga uma taxa de 20% para a Associação, que tem por finalidade a estruturação da cadeia produtiva do artesanato. A partir destes valores, calculamos o preço final da peça, construído de maneira transparente, como se pode ver em nosso site. Ou seja, quem compra um cocar de canudo na Tucum está de fato contribuindo para a geração de renda nestas comunidades, através de um produto que mostra a riqueza, a originalidade, a criatividade e também a contemporaneidade deste povo indígena.

Os Kayapó sabem por quanto vendemos os cocares. Grande parte deles foram trazidos pelos próprios Kayapó (incluindo o presidente da AFP Oro Muturua, o assessor Bengoti Kayapó e o responsável pela cooperativa, Bepnoroti Atydjare), quando vieram ao Rio em dezembro último, e passaram vários dias em nossa loja, dormiram em nossa casa e viram orgulhosos o movimento que estávamos fazendo com aquele objeto. Os Kayapó sabem também que a compra grande de fim de ano da Tucum é para que os cocares sejam comercializados no carnaval. Não têm nenhum problema com isso – eles que, no fim, se apropriam do Carnaval para produzir e vender um produto que até dois anos atrás não tinha saída. Sentem orgulho da difusão de sua cultura, assim como nós. Todo cocar à venda na Tucum leva o nome do artesão que o produziu e de sua aldeia.

As Terras Kayapó estão no centro do arco do desmatamento, com pressões intensas de garimpeiros, madeireiros e criadores de gado, que querem explorar a qualquer custo os recursos destas Terras, também impactadas por grandes empreendimentos em seu entorno. A Associação Floresta Protegida faz um trabalho oferece alternativas à estas pressões, e uma das maiores apostas é o artesanato, por conciliar geração de renda com valorização da cultura, das mulheres e dos velhos. A Tucum tem muito orgulho de saber que foi a principal parceira comercial do artesanato da AFP no ano de 2015. Estamos juntos nesta luta.

Guerreiros Kayapó na Mobilização Nacional Indígena, Brasília, 2015. Foto: Simone Giovine/AFP.

Guerreiros Kayapó na Mobilização Nacional Indígena, Brasília, 2015. Foto: Simone Giovine/AFP.

 

A Tucum ajudou a criar a demanda, afinal, para comprar é preciso vender, e os Kayapó são capazes de produzir muito mais do que temos capacidade de vender. Nossa campanha de Carnaval teve como maior motivação poder comprar mais, fazer circular renda entre este grupo artesão, além de dividir com o público este belo artefato, carregado de significado e história. Cabe dizer que a Tucum não tem lucro com a venda dos cocares, por entender que este é um objeto com grande potencial político, pela reflexão que pode e deveria causar. Durante o Carnaval, distribuímos gratuitamente um adesivo contra a PEC 215 – #PEC215NÃO – para aqueles que queriam enfatizar o movimento político que é se fantasiar de índio no carnaval, com peças originais, feitas pelos índios, comercializadas com responsabilidade e transparência.

No caso do Kit Carnaval Tucum, somos parceiros na venda dos cocares Kayapó, assim como dos apitos Pataxó e dos maracás Karajá. Na Tucum, não falamos de um índio estereotipado qualquer, pelo contrário, trazemos à luz e valorizamos toda a história, a riqueza e a luta que acompanha cada etnia, representada por seus produtos. Se mais pessoas estão em contato e atentas às questões indígenas, está aí um movimento fundamental para que os direitos desses povos sejam assegurados e que suas lutas não sejam oprimidas.

O Carnaval não é uma festa indígena. Não que as populações indígenas não tenham suas festas – sim, eles têm e muitas!, o Carnaval é uma festa popular, que se vale de um momento onde todos querem se travestir, diminuir as instâncias pré-estabelecidas de cor, classe, gênero, etc, projetando uma persona com quem se identificam e gostariam de ser e minimizar as barreiras morais, as quais a sociedade estabelece como padrão a ser seguido. O Carnaval é Cultura, com cê maiúsculo para explicitar o movimento lúdico, de caráter festivo e que toma as ruas de forma espontânea que brinca com os disfarces e o imaginário social.

As pessoas tem diversas motivações para se fantasiar de índio no carnaval, mas temos a convicção de que não passou pela cabeça de ninguém que comprou uma arte indígena na Tucum debochar, diminuir ou explorar a cultura indígena. A escolha da fantasia pode ter muitos aspectos, mas para nós, promover uma “ala indígena” no Carnaval carioca com cocares Kayapó é motivo de orgulho, de homenagem, de reverência. O que fazemos neste caso, é comercializar de forma transparente a arte de povos da floresta e sim, incentivar o folião a, em vez de comprar sua fantasia numa loja barata que produz peças com mão-de-obra em situação de exploração, que ele compre na Tucum e colabore fortalecendo essa rede. Aqui na Tucum, enquanto os guerreiros Kayapó quiserem produzir, vai ter cocar de canudo sim.

Fazemos um esforço indescritível para dizer à sociedade que índio e dinheiro / índio e comércio não são antagônicos; os índios precisam sim de dinheiro e precisam ter suas culturas valorizadas – e a arte é uma forma extraordinária de juntar estas duas pontas. Uma missão complexa – como sempre soubemos que seria, de colocar-se no mercado como empresa parceira dos povos indígenas num país de maioria reacionária e conservadora.

A reflexão em torno da apropriação cultural pode e deve ser promovida, mas vale lembrar que este tema já é objeto de pesquisa, estudos e discussões entre muitos pesquisadores e profissionais de campos como Antropologia, Ciências Sociais e outros. Deixamos aqui duas referências acerca do tema, para quem tiver interesse:

Cunha, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009. https://editora.cosacnaify.com.br/Upload/Produto/2/4/1/3/cultura%20com%20aspas_trecho.pdf

Artigo do sociólogo Antonio Engelke. http://oglobo.globo.com/opiniao/desapropriacao-cultural-18714624

Clique aqui para saber mais sobre o processo artesanal de confecção dos cocares de canudo Kayapó.